Meu Vô e o tênis branco

Meu Vô costumava caminhar muito, mas bota muito mesmo. Ele não tinha preguiça de fazer as coisas e o mesmo valia para caminhadas de qualquer espécie, saia batendo perna sem dó.

Pois bem, as filhas o presentearam com um par de tênis pra facilitar a vida. Mas isso era muita informação para seu costume, filho de italianos, criado no roçado do interior de São Paulo, vivia de calça social e camisa por dentro até debaixo do chuveiro. Tênis era coisa de criança e jovem solteiro vagabundo. O par abandonado ficou lá debaixo da cama por muito tempo.

Eis que um dia, coisas que só ele poderia dizer o por quê...o velho experimentou o tal do tênis branco, estilo all-star, cano baixo, o que seria hoje um dos modelos de passeio, esses mais legais. Caiu confortável e demasiadamente amigável. Bom, depois desse enlace ele só usava sapatos para dançar nos bailes, afinal, aí era questão de mobilidade. Foi casamento total e modernoso.

Tanto não desgrudava do seu tênis, que no batizado da minha prima Juliana, acontecimento na família, pois era a primeira menina em muito tempo de macheza, lá foi o velho trajado com seu amigo inseparável. Era o mais jovem na igreja, e eu com 12 anos, vestido de moletom completo porque odiava que me pusessem calça jeans e camisa, já não estava agradando a todo clero, achei maior legal a atitude do Vô.

Surge então um enorme contra-senso da filharada, as mesmas que o presentearam com o dito. No ápice da carolice, acharam um absurdo, que ele exagerou, tem hora pra tudo, mas pô, olha...você viu o pai como ele está? Essas coisas. Como que o Vô, personagem de alta importância para o acontecimento, está assim trajado...de tênis e calça social, na igreja! Oh meu Deus! Pegaram no pé dele...

Eu criança, fiquei sem entender nada e por muito tempo. Hoje em dia compreendo um pouco mais essas coisas esquisitas do ser humano. Mas já faz muito tempo. Hoje meu Vô seria um velho fashion e tudo mais.

A atitude de alguém de criação tão ortodoxa foi simplista, gostou, pronto acabou. Histórias com os avós rendem e vez em quando voltam à tona por nossa sociedade ser tão igual, tempo após tempo. E os que se destacam por algum motivo que seja diferente do senso comum, sofrem com a estranheza ignorante de nossos olhares, incessantes na busca de "conforto intelectual".

Ah...lógico, fotografaram de maneira que o tênis do Vô não aparecesse. Deixa elas...

Vó, Marcos, Margarete com a Juliana nos braços e meu Avô.

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