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© 2020 BY FELIPE HENRIQUE GAVIOLI

PAROLE AL DENTE

28.01.2016

Seja sobre uma ponte ou na boca da saída de um metrô, o processo de construção de imagens urbanas, digo por mim, que faço todo meu material na rua, é algo extremamente solitário e individualista, não que isso seja um problema, mas uma constatação que não se deve deixar para trás. Muito mais erros do que acertos na linha de contato.
 

Ficar por um bom tempo em um mesmo local, ajuda muito no processo de camuflagem e entendimento de um ponto específico. Deixar o cérebro na espera, para talvez, de repente começar a enxergar outros desenhos em uma cena. Mas esse processo também não é garantia que vá se construir algum material de qualidade. Há tantas fotos que despertam em "apenas um disparo", revivendo o eterno clichê fotográfico do momento decisivo. Só que em verdade esse 'Leitmotiv' passa por tantas outras estações.
 

Há um confronto durante todo o tempo. Limitações técnicas, físicas, sociais. Se observa pelo buraco da fechadura para descobrir algo imenso, mas também há momentos para abaixar a guarda e desistir de alguma confecção que só existirá via papel, lápis e alguma imaginação. Não me agrada mexer pecinhas. Respeito o máximo que puder a organicidade da cena, mesmo que recorte algo que não me interessa e por vezes altere completamente a compreensão do espectador, mas me conforta saber que finalizei um trabalho sem deixar rastros, principalmente no meu arquivo pessoal de rememorações.
 

Finalizando, a moldura da beleza nem sempre é aliada. Talvez essa seja a trucagem mais traiçoeira da fotografia, até mesmo para os olhares mais experientes. Todo cuidado é pouco para não se envolver demasiadamente nesse belo refúgio de delírios visuais.

15.09.2015

Árvore dormindo alinhada com fragmento humano plantado-encolhido-entregue quase vivo sobre quadrado de terra. Tríade afinada de luz asséptica, vozes internas e poste manco. Espera-o acompanhada do frio-madrugada. Perspectiva para mais feira e montes de folhas, nessa mesma calçada.

20.01.2015

 

Acordo com sede. Estava sonhando com fotografias. Estava sonhando na inutilidade de um monte de fotógrafos reunidos olhando para a mesma cena. Isso é um negócio que funciona bem solitário. Mas deixa pra lá. Arrasto os pés até a cozinha, respeitando a escuridão e também minhas retinas, apenas com a luz da lua iluminando alguma coisa. Como bom coruja, no caminho procuro o Elvis. Lá está alguma coisa ali na porta da sala, perto do chapeleiro, deve ser ele deitado. Teimoso, poderia estar na varanda, está bem mais fresco. Talvez ele pense o mesmo de mim. Ouço qualquer coisa, deve ser ele que mexeu uma pálpebra e meia pata ao ver essa coisa estranha passar com a elegância de um pato de boia na calçada esburacada.

Depois de colocar fim à sede por um período de cinco minutos, aproximadamente, vou até a janela dos fundos. Gosto de olhar a casa vizinha atrás do prédio. O pessoal fez reuniões que definiriam a realização da 'Semana de Arte de 22' por ali, quem sabe não me dá alguma mísera ideia. Até hoje nada, mas vale pela corrente de ar. Olho sempre sua arquitetura em um triunfante plongeè absoluto. Parece sempre o prelúdio de alguma cena cinemática. 

Sempre penso que estou no quintal dessa casa, de fato estou. Mas do décimo quinto, que não é tão baixo. Olho na sacada dos fundos da casa e parece que há dois seguranças engravatados tomando um pouco de ar fresco entre as antigas pilastras. Lá na época do onça não havia prédios, portanto deveria ser uma bela vista para os jardins, fontes e natureza domada. Mas logo retomo e penso que deve ser muito chato ser segurança e engravatado, de um lugar que nem deve ter muito risco de assalto, mesmo para o padrão nacional que roubam qualquer coisa, mais ainda, ter que passar a noite de trabalho acompanhado de outro cara que faz a mesma função sonolenta que você e também é engravatado por uma instituição. Ou seja, nesse caso a inutilidade vem dobrada e uniformizada. E ainda por cima não se mexem, olham o vazio, cada um de um lado da varanda fazendo uma leve sombra no pátio, oriunda da luz amarelada que ilumina o espaço. Acho que estão sem assunto também, porque não ouço um pio. Também não estão fumando. Já devem saber de cor e salteado quantas folhas têm em cada árvore do quintal, se bobear deram nomes ou apelidos a elas. Olho para os prédios vizinhos em busca de algum outro cidadão infeliz que perdeu o sono e se debruça na janela em repúdio ao calor, mas logo volto a olhar para baixo e a monotonia continua intacta, mas um pouco mais embaralhada. Um pouco mais distante e bem mais real.

Desconfio dessas imagens, na verdade sempre desconfiei, deixei levar. As sombras da madrugada já fazem parte de mim e também sou sombra e dia. Vou atrás de um par de óculos, tateio a mesa e encontro um. Refaço o caminho inicial, como um perito policial refaz a cena do crime. Vejo primeiramente que infelizmente não é tão tarde e essa noite promete, como vejo também que o Elvis realmente estava ali na porta, com o focinho voltado para a parede, do tipo não me incomode - volte amanhã. Tenho meu olhar atirado para as sombras que fazem múltiplos contrastes em preto e branco na sala, são bonitas, são geométricas e modernistas. Olho um tempo para o teto e descubro mais contornos e formas, depois retorno por alguns segundos para a janela dos fundos, apenas para me certificar. Inclino minha cabeça para ver finalmente que as pessoas da casa são apenas sombras de frutos míopes e silenciosos, esculturados e arquitetados desde mil novecentos e bolinha.

20.11.2012

 

No sétimo compasso, foi sua última dança. O silêncio crava. As mãos desvanecem. Passo a feira de quinta. Derramo a feira de quinta. O gato contempla os passos. Passo a contemplação. Passo alto. Passo eu. Passo de leve. Passo também o terraço, passo o banco de madeira. Passo. Passo o pé de manga, passo o pé de goiaba, passo o pé de pêssego, passo o pé de cana, passo o pé de flor, passo os pássaros inquilinos. Passo este verão. Passo por passo. Passo o relógio. Passos perdidos, passos ganhos, fulgurantes passos. Se inflamam emoções simples, emoções nuas, emoções sem enredo. Orquestrações baratas, naipe de metais repercutem em exclusiva missão de rodopiarem os velhos corpos. Dividem os suspiros. Dividem a água pura. Dividem o salão. Dividem a pura sensação. São abrigos. Telhados não tem cor. Cor somente no verde. Das externas paredes. Em cores. Sem ter tempo de se perder, sem ter tempo de abrir a porta para sonhos se atreverem em azuis. Sol rachando o dia. Muito clarão, tempo. Irrefletidos momentos. Caminhos pisados. Saraus reprimidos. Poucas palavras, míseros sorrisos sem afobação. Do segundo. Da dança. Sem quase. O sol é refletor dos velhos. Qualquer coisa de finito. Escalda sol, sopra. Duas horas e meia para a crescente lua. Nem quinze minutos separam a casa que é seu lugar, da dança em décadas de bemóis. Calça os sapatos e dança com sua velha mulher. Meu velho. Abotoa tua velha camisa branca. Na sala acanhada, o telefone divide o quadrado com o tapete tentando silenciar os passos. O cochilo alumia o prelúdio da dança. Fevereiro é quentura. Na televisão os três tentos da seleção brasileira sobre os americanos de camisa azul marinho e gola vermelha. O copo americano vazio aguarda o vinho seco do garrafão dormente, em chão frio. De talher apenas o garfo, que raspa elegante a comida sobre prato de vidro marrom. Almoçou meio-dia e pouco como sempre. Olha no alto. Orvalho preguiçoso desperta o mato. Sopra a manhã. Sopra o topo das árvores. Verte a dança, sopra o sétimo compasso. 

01.02.2011

Meu Vô costumava caminhar muito, mas bota muito mesmo. Ele não tinha preguiça de fazer as coisas e o mesmo valia para caminhadas de qualquer espécie, saia batendo perna sem dó.

 

Pois bem, as filhas o presentearam com um par de tênis pra facilitar a vida. Mas isso era muita informação para seu costume, filho de italianos, criado no roçado do interior de São Paulo, vivia de calça social e camisa por dentro até debaixo do chuveiro. Tênis era coisa de criança e jovem solteiro vagabundo. O par abandonado ficou lá debaixo da cama por muito tempo.

 

Eis que um dia, coisas que só ele poderia dizer o por quê...o velho experimentou o tal do tênis branco, estilo all-star, cano baixo, o que seria hoje um dos modelos de passeio, esses mais legais. Caiu confortável e demasiadamente amigável. Bom, depois desse enlace ele só usava sapatos para dançar nos bailes, afinal, aí era questão de mobilidade. Foi casamento total e modernoso.

 

Tanto não desgrudava do seu tênis, que no batizado da minha prima Juliana, acontecimento na família, pois era a primeira menina em muito tempo de macheza, lá foi o velho trajado com seu amigo inseparável. Era o mais jovem na igreja, e eu com 12 anos, vestido de moletom completo porque odiava que me pusessem calça jeans e camisa, já não estava agradando a todo clero, achei maior legal a atitude do Vô.

 

Surge então um enorme contra-senso da filharada, as mesmas que o presentearam com o dito. No ápice da carolice, acharam um absurdo, que ele exagerou, tem hora pra tudo, mas pô, olha...você viu o pai como ele está? Essas coisas. Como que o Vô, personagem de alta importância para o acontecimento, está assim trajado...de tênis e calça social, na igreja! Oh meu Deus! Pegaram no pé dele...

 

Eu criança, fiquei sem entender nada e por muito tempo. Hoje em dia compreendo um pouco mais essas coisas esquisitas do ser humano.  Mas já faz muito tempo. Hoje meu Vô seria um velho fashion e tudo mais. 

 

A atitude de alguém de criação tão ortodoxa foi simplista, gostou, pronto acabou. Histórias com os avós rendem e vez em quando voltam à tona por nossa sociedade ser tão igual, tempo após tempo. E os que se destacam por algum motivo que seja diferente do senso comum, sofrem com a estranheza ignorante de nossos olhares, incessantes na busca de "conforto intelectual".

 

Ah...lógico, fotografaram de maneira que o tênis do Vô não aparecesse. Deixa elas...

 

 

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